Macapá / AP - sexta-feira, 06 de dezembro de 2019

Como prevenir "quedas de pressão" e desmaios.

Será mesmo que a candidata Dilma Rousseff pode ter sofrido um episódio de queda súbita de pressão arterial? 

 

Ao final do último debate entre os candidatos à Presidência da República, ocorrido no dia 15/10, a candidata Dilma Rousseff sofreu de um episódio de mal estar, o qual foi atribuído, por ela mesma, a uma “queda de pressão”.

Mas será que a pressão arterial pode mesmo cair nestas circunstâncias e levar e episódios como o ocorrido com a candidata? Entenda como.

Dilma Rousseff tem 66 anos e, pela idade, possui alguns fatores de risco para apresentar tonturas, lipotimias (pré-desmaios) e quedas súbitas da pressão arterial. Vamos às possibilidades:


1)    Estímulo vaso-vagal: é a causa mais comum de desmaios (cerca de 20 a 35% dos casos). Principalmente, entre pacientes jovens e sem doença cardiovascular ou neurológica prévia. Estão associados ao estresse físico ou emocional, exposição ao calor ou ao simples ato de levantar. E costuma apresentar-se com queda da frequência cardíaca e da pressão arterial, além de palidez e vasodilatação nas extremidades. Este parece ser o principal motivo do mal estar da candidata após do debate. Alguns vídeos mostram que, após o término do debate, a candidata permaneceu sentada por alguns segundos, evidenciando cansaço (provavelmente associado ao evento estressante e prolongado pelo qual tinha passado). Logo após levantar-se, sentiu mal estar.

2)    Hipotensão Postural: é caracterizada pela queda de pressão arterial ao levantar. Está associada à idade avançada, presença de doenças como diabetes ou Parkinson e, principalmente, medicações como antidepressivos, diuréticos, vasodilatadores e outros anti-hipertensivos. Em virtude de o mal estar da candidata ter sido desencadeado após levantar, esta possibilidade deveria ser investigada com a medida da pressão arterial nas posições sentada, deitada e em ortostase (em pé).

3)    Hipersensibilidade do Seio Carotídeo: entidade caracterizada por queda da pressão arterial e frequência cardíaca após estimulação de mecanorreceptores da artéria carótida (na região do pescoço). Apesar de mais comum a partir dos 60 anos, esta possibilidade está praticamente descartada porque a candidata não utilizava camisas ou colares apertados no momento do evento.

4)    Cardiopatias Estruturais: a presença de doenças do coração como miocardiopatia hipertrófica ou estenose aórtica poderia levar a quadros de síncopes (desmaios) ou mal estar como ocorrido com a candidata. Possibilidade também pouco provável em virtude do vigor físico já evidenciado pela candidata nesses meses de campanha eleitoral.

5)    Obstrução do fluxo sanguíneo cerebral: possibilidade pouco provável mas que deve ser descartada com uma ultrassonografia para avaliar o fluxo sanguíneo nas artérias carótidas e vertebrais (que levam o sangue até o cérebro).

6)    Arritmias Cardíacas: também pouco provável em virtude da apresentação clínica da paciente. O que não deixa de tornar obrigatória a solicitação de eletrocardiograma e Holter para descartar qualquer arritmia em pacientes com quadros semelhantes.

7)    Outras causas como estimulação gastrointestinal, vertigem paroxística posicional benigna, embolia pulmonar, crises epilépticas parciais, acidentes vasculares cerebrais ou mesmo infarto agudo do miocárdio não podem ser descartadas sem avaliação clínica cuidadosa.

 

De modo geral, a imensa maioria destes quadros está associada a causas benignas. A melhor prevenção só pode ser alcançada com avaliação clínica cuidadosa na identificação dos fatores de risco e no controle das doenças crônicas como hipertensão arterial e diabetes.


Alessandro Nunes

Médico prof efetivo da UNIFAP e especializado em Clínica Médica pela UNIFESP e Geriatria pela USP.